A história oficial da formação dos territórios se consolida por meio de documentos, registros e livros, e é retratada em espaços públicos, edifícios e monumentos. Mas, como disse Walter Benjamin, é uma história de vencedores sobre vencidos, e, portanto, são esses os elementos que promovem a manutenção de estruturas sociais baseadas na dominação de um povo sobre outro. Apesar dessa história determinar uma invisibilidade das mulheres e um roubo de sua construção ativa de espaços, percebemos, por meio de uma releitura feminista dos processos de regularização fundiária, a presença massiva de mulheres à frente dos movimentos sociais. Em resposta, este estudo promove uma pesquisa-registro baseada na luta por moradia no bairro Vale Verde, em Juiz de Fora (MG). Por meio de pesquisa documental, além de duas entrevistas com lideranças comunitárias — Doña Izaura e Balbina —, discutimos as relações sociais de gênero nos processos históricos de reivindicação de moradia e regularização fundiária e as dinâmicas de apagamento das mulheres nessa luta. A apresentação dessas narrativas, com foco em suas histórias de vida durante e após o movimento, destaca as condições dramáticas de acesso à terra e à moradia para as mulheres, bem como as barreiras impostas por sua condição feminina na construção de continuidade na vida pública e política. Este trabalho busca utilizar a extensão acadêmica para registrar suas memórias e histórias de vida.